quarta-feira, 26 de outubro de 2011

- Escrita Criativa - Luz branca

Escuro.

A sala estava escura.

Todos os pensamentos que lhe ocorriam eram escuros.

Tinha memórias escuras.

Via paredes escuras e um chão escuro.

Frio.

Pouca roupa tinha, o que tornava tudo um pouco mais mórbido e cinzento.

Era um dia como outro qualquer, um final de tarde, um pós lusco-fusco. Quase, mesmo quase noite, com um céu nublado, pesado e mal-humorado. O vento assobiava com força, parecia zangado.

Da pouca realidade que passava para dentro da sala, nada mais se via.

Esta era a sua janela, esta era a sua única fonte de esperança. O resto eram lembranças escuras, quase sumídas de há tanto tempo que ali estava. A imaginação era a sua única fonte de energia para se manter ligado à vida. Pouco se movia e pouco se lembrava de todo aquele tempo ali passado.

Sem mais dentro da sala para alem de um balde com água, desejava a toda a hora ouvir um caminhar na sua direcção. O caminhar da liberdade. A tão desejada liberdade. No entanto, os únicos passos que ouvia para alem dos imaginários criados pela sua mente alucinada por tamanha solidão, eram os passos de alguém que uma vez por dia lhe vinha trazer um prato de comida, nem sempre bem cozinhado ou servido.

Já tinha perdido a noção do tempo e até a noção de si mesmo. Já se considerava um prolongamento de paredes e chão de cimento sujo. Habituara-se ás condições desumanas há algum tempo. Caso dali saísse um dia, não sabia se alguma vez se voltaria a habituar à vida como conhecera um dia, em sociedade.

Nesta noite escura, não ouviu passos mas a porta da sua sala abriu-se e uma luz muito forte surgiu por esses 3cm de intervalo. Surpreso hesitou. Não sabia se era apenas mais uma partida da sua mente ou se era a sua noite de sorte. Decidiu arriscar, pensando que pior não poderia ficar.

Dirigiu-se à porta com alguma indiferença e descrença. Ao abrir a porta ficou cego com tanta luz e tinha agora 2 hipóteses: dar um passo em frente e enfrentar o desconhecido arriscando-se a ficar à mercê da situação, ou fechar a porta e não trocar o certo pelo incerto, manter-se num estado amorfo por tempo indefinido.